Casa Verde de Itaguaí, 14 de agosto de 2026
ESSE NEGÓCIO DE MATAR
Minha morte, quando e se acontecer, não será grande coisa: não estarei mais lá para vivenciá-la — se é que me entendem.
O terror da morte é que só se morre uma vez. Evento único. Espantoso. Definitivo.
Na possibilidade da sua repetição, como na dupla negação das crianças, ganha a vida. A morte da morte — se é que me entendem.
A morte continuada não é farsesca. É literária, é vernacular, é quase uma amiga — quando não é salvadora.
— Venha, vamos matar a fome.
— Obrigado. Prefiro matar a sede.
— Então vou ficar aqui, matando o tempo.
— Se eu for, você vai é morrer de saudades.
— Nada. Quando você voltar e eu não estiver, vai é morrer de ciúmes.
— Nada digo eu. Vou provar meu ponto: mato a cobra e mostro o pau.
— Não matei esta sua charadinha.
— Claro que não, ela é do tempo em que eu matava aulas.
— Isso, você é mais velho: matei a pau!
— Morri.
Não morri, fui.



