Esse negócio de morrer
#316 Minha morte, quando e se acontecer, não será grande coisa.
Do Além, 24 de julho de 2026
ESSE NEGÓCIO DE MORRER
“Minha morte, quando e se acontecer, não será grande coisa: não estarei mais lá para vivenciá-la — se é que me entendem.”
A frase estava pronta e a ideia geral do texto que pairava sobre as águas me agradava.
A frase seguinte, que começava um novo parágrafo, começava com “Só se morre uma vez…” quando tocou o telefone.
— Bertini?
— Eu.
— Gostei da primeira frase.
— Ôpa, de qual texto? Quem é o leitor?
— A morte me interessa. Tenho com ela uma intimidade escandalosa, tratada entre sussurros e berros. Aos berros ela mete menos medo. Esta semana os imbecis…
— Como assim? — Hesitei, interrompendo. — Qual texto?
— O de hoje, Bertini, o de hoje.
— O de hoje? — Comecei a rir.
— O de hoje! Em Vestido de Noiva escrevi uma mulher que morre no primeiro ato e passa o resto da peça tentando entender o que aconteceu. Ela não sabe que morreu, Bertini. Você sabe que vai morrer e declara que não estará lá para saber. Esta semana…
— Nelson? — Especulei.
— Sua frase e a Alaíde compartilham a morte que escapa à consciência de quem a vive. Já essa semana eu tive que enfrentar…
— Nelson — afirmei, assumindo a cena — é muita literatura pra minha mochila!
— Esta semana foram me chamar para falar da Copa. Da nossa morte na Copa! Os imbecis buscaram o vira-latas, quando deviam ter buscado A Falecida!
— A Falecida?
— Ela planeja seu velório! Ela quer morrer com plateia! Deviam, na morte da seleção, ter ido buscar meu teatro, minhas obras escritas, meus berros que espantam o medo da morte. Foram buscar minha sociologia, os imbecis!
— Ô Nelson — brinquei — eu ainda não terminei o texto, nem sei se vou conseguir terminá-lo até sexta. Nem sei se ele vai seguir na estrada da morte berrada ou não…
— Bertini, berre com a morte, repita seu nome, leve ela pra frases de mata-mata. Mas, sobretudo, apresente textos para os imbecis.
— Nelson… Vamos pensar o seguinte… Nelson? — falei sozinho.
Na dúvida e na impossibilidade de terminar a história da frase sobre a morte, lembrando do pedido feito no telefonema e do que já escrevi, aqui vai uma resenha insólita sobre Escravas do amor – Suzana Flag, do Nelson Rodrigues. Vai que.
QUEM É SUZANA FLAG?
Esta semana, Suzana Flag veio conversar comigo. A conversa está boa. Acho que ela veio para ficar.
Personalidade transbordante, Suzana é simples ao falar. Direta. Veloz nas ações (de tirar o fôlego), tem um raciocínio rápido e um despudor insinuado maravilhoso.
Despudor. Suzana sentou — ou melhor, se jogou no sofá — sobre as próprias pernas e alisou a saia rodada. O pé que havia ficado à mostra servia de pouso eventual para a mão que gesticulava. Em dois minutos, ela falava de um beijo. Um beijo imaginado. Só isso. Ela não contou sobre o beijo; contou as reações que ele despertava: o suor nas mãos, o frio na barriga, o pulso acelerado, a cor no seu rosto. Também não revelou de quem ela falava. Só um beijo. Depois, pediu um café e contou, folheando uma revista, sobre a morte do noivo da tia.
Insinuado. Suzana conta as coisas básicas e olha para você. O que passa do beijo, passa na sua alma. Diante do horror e surpresa da morte inevitável, você fecha os olhos. Por discrição, recua ao básico. Por livre, sua imaginação é quem sai a caminhar. Sabendo do medo dos seus medos, Suzana diz que ainda tem mais.
Maravilhoso. Suzana pediu para eu convidar você para uma leitura. Para tomar uma taça de vinho e falar de coisas simples. Você topa?
Eu heim? Fui.



