Segunda Crônica, 3 de março de 2026
VIDA DE GOLEIRO
Um dia, noutra vida, fui goleiro.
Ser goleiro é diferente de jogar no gol. Jogar no gol é ocupação temporária: é aceitar ficar lá pela goleira, usar preferencialmente as mãos e ter uma certa disposição emocional — alguma coisa entre a humildade e o altruísmo — para não perder amigos.
Já o goleiro é gente de outra espécie: ele tem a consciência orgulhosa dos seus privilégios e a certeza grave das suas obrigações. Se veste diferente. Tem um território em que é intocável e uma área para chamar de sua. Vê o jogo de frente, comanda barreiras e lê os olhos dos adversários. Tem a obrigação de defender as bolas fáceis, a hipótese do heroísmo nas difíceis e a tenebrosa perspectiva da catástrofe diante de qualquer erro.
Isolado na sua individualidade, raramente junta-se ao aglomerado das comemorações. Seu comedimento é do tamanho das suas responsabilidades. Em jogos fáceis, contenta-se com a alegria superior de ver seus meninos brincarem felizes. Nas falhas, ouve o silêncio morno da sua torcida — não existe defesa redentora. Falhar é para mortais. Goleiro não tem vida fácil.
Lembrei desta outra vida na semana passada, lendo uma extraordinária matéria escrita por invencíveis jornalistas esportivos: as notas dos jogadores do Grêmio após uma vitória fácil por 3 a 0.
Depois de breves considerações e um travessão, a nota: um simples e implacável veredito de zero a dez — frio, preciso, rigoroso.
Fulano: Poderia ter apoiado mais. Deu a assistência para o primeiro gol – Nota: 6
Beltrano: Tentou coordenar o sistema defensivo. Atuação segura – Nota: 6,5
Goleiro: Não teve trabalho. Nenhuma defesa – Nota: 5
Não sou mais goleiro. A vida segue difícil.
A justiça tem que ser urgentemente ilegalizada.
— Millôr Fernandes, ontem
Quem não tem lenço se despede menos.
— Idem, Millôr definitivo - A Bíblia do Caos, L&PM
Sem lenço, fui.



