Copa do Mundo, 3 de julho de 2026
UM CRAQUE
Curioso para saber se eu havia escrito sobre futebol durante a Copa de 2022, fui consultar meus arquivos — nem tão implacáveis — e não achei nada.
Inconformado, olhei tudo de novo. Mentira. Não olhei tudo de novo. Antes, descobri que a Copa daquele ano aconteceu em novembro e dezembro. Coisas do Catar. Eu havia procurado no lugar errado.
Voltei aos arquivos. Bingo. Meus arquivos são implacáveis: lá está escrito, ao lado da data de 09/12/2022, uma sexta-feira, que o Brasil jogaria naquele dia.
Desconfiado das minhas eventuais ousadias futebolísticas, fui ao texto — e sorri diante do espelho de 38 palavras que encerravam o dia:
Para quem ficou curioso com o nome da personagem, Anyuta é o título de uma história curta de Anton Chekhov (jogador da seleção russa, de 29 de janeiro de 1860 até 15 de julho de 1904 — um craque).
Escrever sobre futebol é fácil, escrever sobre o futebol é difícil.
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A história contada naquele fatídico dia de perder para a Croácia e dar adeus à Copa do Catar vai assim:
Depois de Novo Oeste, na direção do fim do mundo, não existiam dentistas.
Depois da consulta, pela primeira vez sem dor em sete dias, quase exultante, com tempo disponível até o horário de saída do ônibus que o havia trazido, Jean foi caminhar e conhecer a cidade. Acabou pensando na vida.
Viu ruas vazias e sentiu-se acolhido; viu uma praça com um chafariz estragado e achou-a bonita; viu uma ferragem, duas igrejas, duas barbearias, um armazém e uma padaria. No ponto mais distante de sua caminhada, à beira da estrada, viu um restaurante com uma placa dizendo “vende-se o ponto” e reconheceu seu futuro.
Na estrada de volta, já noite lá fora, o reflexo na janela do ônibus trouxe lembranças de seu falecido pai. Sorriu, bafejou o vidro e, com dois traços feitos a dedo, desenhou um guarda-sol.
Bastaram uma reunião e sessenta dias para que Jean, sua esposa Marlene e a única filha, Anyuta, ocupassem as quatro peças na sobreloja do restaurante. Celso, o antigo cozinheiro e colecionador de discos de vinil, renovou seu contrato e seguiu morando no quarto dos fundos, atrás da cozinha.
Agora, dois anos depois do dia em que se mudou para a capital, na primeira visita que fazia ao restaurante e casa do pai, sentada ao seu lado, sentindo seu hálito, ouvindo seu silêncio, observando seu armário de portas entreabertas e prateleiras vazias, sentindo o mormaço de uma tarde de feriado em Novo Oeste, Anyuta remexia em uma velha caixa de fotos da família – essa estranha mistura de espetáculo com a coisa terrível que é o retorno do morto – e tentava conversar com seu pai.
— Pai, o que os discos do Celso fazem por aqui?
— Não são mais dele, minha filha.
— São seus? — Perguntou retoricamente.
— Fiquei com eles e a camionete.
Anyuta fechou a caixa de fotografias, alisou a tatuagem que o pai não conhecia, respirou fundo e fez uma tentativa:
— Pai, a mãe me procurou.
Diante do silêncio, mudou de assunto:
— Quando o senhor viaja?
— Viajamos amanhã pela manhã. Levo você.
Na manhã seguinte, Novo Oeste amanheceu como sempre: ruas vazias e o chafariz da praça estragado. Na beira da estrada, na frente do restaurante, a faixa não era original: “Agora, sob nova direção”.
Hoje tem jogo.
Amanhã tem jogo.
Domingo tem jogo.
Fui.



