Brasil, 7 de agosto de 2026
Este texto tem um ano. O Nestor ainda chora e o Antonico somos nós.
SACUDIU O MEDO
Na vida normal, Nestor gostava de música. Gostava de samba, era amigo do Antonico e, na escola, não tinha tempo ruim: tocava cuíca, surdo e tamborim.
A vida passa, o tempo voa, a Sapucaí é longa e nem tudo continua numa boa — mas no recuo da bateria, na paradinha, no respiro do samba Nestor sorria. Não tinha boca pra se queixar.
Recolhia frases feitas, velhos comerciais; tirava o pó, juntava tudo — cuidava do ritmo e pela janela via a banda passar.
Quando a água subiu, a bunda molhou. Quieto, sozinho, Nestor chorou. Quem viu, fez que não viu e calou. Só o Popular, que não viu, falou.
No ritmo que cresce, no diz que diz do fuxico, os ouvidos do Antonico. Nascido em Jurujuba, distrito de Niterói, cidade do Rio, sua alma morava no Estácio, e sabia que na escola do Nestor ninguém faz o que ele faz.
Sem favor, resoluto, coisa antiga, não do porvir, Antonico decidiu agir. Sacudiu o medo, começou a falar, olhou pelo rapaz, e o povo, na avenida girando estandarte na mão, voltou a cantar.
Enfrentemos os agostos.
Fui.



