FIFA, 17 de julho de 2026
OS MISERÁVEIS
Ao contrário das estradas, o vento não faz curvas. Venta pouco em Novo Oeste; quando faz calor, as pessoas ficam irritadas. Quando faz calor e venta, as pessoas ficam loucas.
Em Novo Oeste, quando faz calor e venta até as miragens vão embora. O vento que não faz curvas sacode o Morro da Cruz e desencanta Pedro Cabeça.
Nestes dias, Pedro Cabeça desce o morro gritando.
Pedro Cabeça sempre carrega um livro e as pessoas e os cachorros, quando ele grita — como as miragens quando venta — fogem dele.
Ontem ventou e Pedro desceu. Gritando. Nas mãos, Os Miseráveis, de Victor Hugo.
Junto com os gritos de os miseráveis!, os miseráveis! a confissão que ele não tinha lido o livro. Tinha visto a Copa na televisão da rodoviária.
Para os novatos ou esquecidos:
NOVO OESTE, MUITO PRAZER
Novo Oeste é minha cidade natal. Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha, na minha juventude, o melhor muro do mundo para sentar em cima, pensar na vida e comer bergamotas. Tudo isto já foi dito.
O que ainda não foi dito, é que em Novo Oeste existiam dois partidos políticos, duas igrejas, dois clubes sociais, duas rádios, três cemitérios e dois loucos. Além disso, duas opiniões irreconciliáveis. Sempre. Em tudo.
Manoelzinho, o primeiro louco, caminhava inclinado para a frente, olhava para o chão e xingava as formigas. Dormia na rodoviária — sob as bençãos da gerente Iracyna, e ninguém sabia como alimentava-se. De tempos em tempos, junto com um upa, inclinava-se para trás e, parado, olhando pra cima, xingava as nuvens.
O segundo louco atendia por Pedro Cabeça. Pedro Cabeça, dizia-se, morava no mato, na subida do Morro da Cruz; carregava um livro, falava sozinho e, quando podia, jogava pedra nos cachorros de rua.
Certo fim de tarde, naquela hora do dia em que as cidades começam a trocar de roupa, caminhavam na mesma calçada, em sentidos contrários, Manoelzinho e Pedro Cabeça. O notável encontro, quem viu não esquece, fez com que Manoelzinho dissesse upa e, parado na frente do conterrâneo, começasse a gritar contra as nuvens escuras do entardecer. Pedro Cabeça, espantado, olhou pra cima e, na falta de cachorros, começou a jogar pedras em direção aos céus. Quando as pedras começaram a cair, cada um correu para o lado de onde viera.
Alguns dias depois, Manoelzinho morreu.
O terceiro cemitério, o municipal — com capim crescido, sem conservação e sem flores, era reservado para os pobres, para os sem voz e para os sem lado. Lá, Manoelzinho foi velado durante trinta minutos, e enterrado.
No velório, sem saber que morava em Novo Oeste, sozinho, compareceu Pedro Cabeça. Chegou, fez uma reverência, colocou seu livro sobre o caixão e acompanhou, calado, o trajeto até a cova rasa.
Ao ir embora, sem conseguir xingar nada, Pedro Cabeça caminhou inclinado para a frente. No portão do cemitério, surpreso, fez um upa e olhou para o céu. Chovia em Novo Oeste.
Sem prorrogações, fui.



