Brasil, 27 de março de 2026
OLITA
— A senhora me dá licença?
Sentada junto à janela, instalada como quem sabe que vai até o fim da linha, Olita murmurou alguma concordância, puxou para o colo a sacola que estava entre suas pernas, aproximou-se da lataria do ônibus, olhou para conferir o espaço que livrara, e lembrou do tempo em que não ocupava quase dois assentos.
Reacomodada, suspirou fundo, abraçou a sacola junto ao peito, sentiu o trabalho do dia, o mormaço da tarde e os olhos pesados. Embalada pelo sacolejar da viagem, dormiu sentada.
Dormiu e sonhou. No sonho, ela tinha o tamanho do colo de seu Vôswaldo, um cão chamado Dunga e uma vaga sensação de segurança.
Antigamente, era nos braços de seu avô que a menina Olita buscava refúgio quando o sapo reaparecia em seus pesadelos e ela acordava assustada: “é só um sonho ruim, Lita; só um sonho ruim”, repetia o avô, acolhendo e beijando a neta.
No pesadelo, um sapo abocanhava a cabeça de um passarinho e, por isto, era morto a pauladas. Apanhava até morrer. Morria o sapo, morria o passarinho. Acordada, chorando, acarinhada pelo avô, a menina Lita dizia que quando fechava os olhos ainda ouvia o barulho do pau batendo nas costas do sapo, e não queria mais dormir.
— Lita, a vida é assim. Com o tempo, é você quem vai assustar os sapos — dizia Vôswaldo, embalando a neta encolhida em seu colo.
No levanta e senta de passageiros ao seu lado, Olita acordou apenas o suficiente para ver uma distraída colegial de mochila no colo, rosto e corpo de menina, e lembrar que Juanita, sua única filha com o falecido Carlinhos, também devia estar a caminho de casa. Voltando a dormitar, sorriu.
A viagem seguiu assim, entre solavancos, lembranças e sonhos até que uma explicação gritada acordou a passageira:
— Pessoal! Pessoal, estou com um defeito no carro. Quebrou. Fim da jornada. Por favor, desçam e aguardem o próximo veículo — a passagem será liberada!
Ainda zonza de sono, mão firme na sacola, Olita abriu espaço na fila que se formava no corredor e desceu os degraus do ônibus só pensando nos problemas que o atraso lhe causaria: tinha que lavar a louça de ontem, fazer o jantar de hoje e preparar o almoço de amanhã — Juanita haveria de ter varrido a casa. Além das tarefas, o capítulo da novela que não podia perder.
Decidida a ser uma das primeiras a embarcar na baldeação, a dona da sacola tomou a dianteira do grupo de passageiros em direção ao ponto mais próximo, só para surpreender-se em frente à Paróquia de São Benedito.
A pressa de ir para casa colidiu com a perspectiva de um pouco de serenidade. Fragilizada pelos tempos difíceis que atravessava com Sérgio, seu ex-companheiro que voltara a beber e a procurá-la, Olita resolveu entrar na igreja. Precisava falar com Deus.
As orações, o silêncio reparador, a contrição: tudo contribuiu para que Olita sentisse a alma leve e se deixasse ficar.
Depois, serena, foi para o ponto de embarque sem importar-se com o horário ou com o fato de pagar um novo bilhete.
O restante do percurso pareceu mais rápido e agradável do que nunca. Até os trezentos metros de chão batido entre o fim da linha e sua casa pareceram mais curtos e, quem diria, capazes de refletir os primeiros raios da lua que surgia.
A situação só mudou depois que a alma leve que carregava uma sacola dobrou a única esquina do caminho cheio de eucaliptos e avistou, estacionada na frente de sua casa, a velha e batida caminhonete que pertencia a Sérgio.
Seus passos acompanharam a aceleração de seus batimentos cardíacos, até virarem uma corrida. Ao lado da porta entreaberta, encostada na parede, estava a vassoura que a mãe da Juanita pegou sem pensar.
Debruçado sobre o colo desnudo da então enteada, Sérgio começou a apanhar até quebrar o cabo da vassoura com que Olita, em silêncio, lágrimas lavando o rosto, batia e batia. Batia como batia roupa antigamente; batia ouvindo o barulho nas costas do maldito sapo de seus pesadelos. Bateu com o que restou do cabo da vassoura até que Sérgio, cambaleando, conseguiu fugir, dirigindo sua caminhonete.
Depois, ela chamou a filha, enxugaram suas lágrimas e foram assistir, de mãos dadas e em silêncio, o final da novela.
Na manhã seguinte, indo para o trabalho, Olita desceu bem antes de seu destino final, atravessou a rua e entrou na Igreja de São Benedito. Ela precisava falar com Deus.
VB
O Brasil registrou 83.012 casos de estupro em 2025.
227 vítimas por dia — 9 por hora — uma a cada seis minutos.
Não gosto de reler o que escrevi.
Só achei que devia.
Fui.



