São Paulo, 20 de fevereiro de 2026
PRATO DO DIA
No restaurante do Aquiles, Hugo era o cozinheiro.
Calado, discreto, paciencioso, estrábico, dono de uma voz de timbre metálico e sotaque italiano de vogais fortes, eram raras as suas aparições fora da minúscula e quente cozinha do centro acadêmico – uma relação para iniciados.
Certo início de ano letivo, num desses dias de fila-com-fome, por algum imprevisto, Hugo acabou no balcão, atendendo sozinho.
Atento, mãos apoiadas no balcão e com o olhar fixo no que parecia ser o brinco da estudante — um convite mudo ao pedido:
— Oi, é minha primeira vez por aqui.
— …
— Quer dizer, ontem eu também vim. Mas só olhei. Gostei de um prato que vi. Será que o senhor consegue montar um igual pra mim?
Enquanto trocava o pano de prato de ombro, o olhar imóvel do cozinheiro serviu de incentivo.
— Era assim: tinha uma porção de arroz coberta com um guisado com molho, um ovo frito e, acho, duas salsichas… que pareciam fervidas. Ah… e tinha um pouco de salada de batata. O senhor consegue um assim? Junto com uma água com gás, só com gelo, por favor.
Hugo arrastou sobre o balcão uma garrafa de água, um copo com gelo parcialmente derretido e um ticket pré-impresso com o valor da conta. Sob aplausos da fila, voltou-se para a cozinha:
— Salta um almoço!
VB
É o que temos pra hoje.
Carnaval foi ontem.
Fui.



