Justificativas
#292 Eu chamei isso de justiça. César ia destruir a República. Eu o impedi.
Nada Menos, 6 de fevereiro de 2026
JUSTIFICATIVAS
PERSONAGENS – William Shakespeare
BRUTUS — matou César (ditador em ascensão, seu amigo, quase pai), na peça Júlio César
CLÁUDIO — matou o Rei Hamlet (seu próprio irmão, para tomar a coroa e a esposa), na peça Hamlet
MACBETH — matou o Rei Duncan (seu soberano, enquanto dormia), na peça Macbeth — ausente
CORO — opinião pública
ATO IV – O INÍCIO DA QUEDA
Cena Única
(Interior de um jato particular. Rota para Brasília. Som constante dos motores.)
BRUTUS: Ele não veio.
CLÁUDIO: Não.
BRUTUS: Disse que nos acompanharia.
CLÁUDIO: Mudou de rota. Foi para Portugal.
BRUTUS: Portugal?
CLÁUDIO: O Reino de Portugal. Terra antiga. Boa para exílios.
BRUTUS: Macbeth nunca gostou de enfrentar plateias hostis.
CLÁUDIO: Ele prefere distância. Lá, a culpa vira curso. Aqui, vira discurso.
CORO — à parte:
Alguns fogem.
Outros explicam.
BRUTUS: Ele, como nós, matou por poder.
CLÁUDIO: Sim. Mas não tentou transformar isso em virtude.
BRUTUS: Covarde.
CLÁUDIO: Ou esperto.
BRUTUS: Ainda assim… Você matou seu irmão.
(Pausa.)
CLÁUDIO: Confesso, matei.
BRUTUS: Derramou veneno no ouvido dele enquanto dormia no jardim. Também covarde.
CLÁUDIO: Covarde? Eu fiz o que era necessário. E você? Enfiou o punhal em César vinte e três vezes — com outros vinte homens. Onde está a coragem nisso?
BRUTUS: Eu matei em público. À luz do dia. Diante do Senado. Eu não me escondi.
CLÁUDIO: Não se escondeu? Você esperou César estar desarmado, cercado, sem guarda.
Vinte contra um. E chama isso de coragem?
BRUTUS: Eu chamei isso de justiça. César ia destruir a República. Eu o impedi.
CLÁUDIO: E meu irmão? Meu irmão era rei. Bom rei, dizem. Amado. E eu o matei.
Não por república — por desejo. Pela coroa, e por Gertrudes. Ao menos eu não minto sobre o motivo.
CORO — à parte:
Motivos sinceros não absolvem crimes.
BRUTUS: Você não mente? Você envenenou seu próprio irmão e depois fingiu luto público!
Casou com a viúva dois meses depois! Chamou isso de “sabedoria”: casar no luto, alegria na tristeza. Você é mestre da mentira!
CLÁUDIO: E você? Você abraçou César no Senado. Disse “Ave, César” antes de enfiar a faca. Quem é o mentiroso?
(Silêncio.)
BRUTUS: A diferença, Cláudio, é que eu matei por Roma. Você matou por luxúria e poder.
CLÁUDIO: Luxúria, palavra feia. Eu diria… amor. Eu amava Gertrudes. Ainda amo. Meu irmão a tinha, mas não a via. Estava sempre em guerra. Eu estava lá.
BRUTUS: Antes de matar o marido dela?
CLÁUDIO: … Durante.
BRUTUS: Monstro!
CLÁUDIO: Hipócrita! Você matou César para supostamente “salvar Roma”, mas Cássio te manipulou. Cartas falsas. Povo inventado. Você foi usado! Eu, ao menos, agi por vontade própria.
CORO — à parte:
Ser usado não é ser inocente.
BRUTUS: Cássio apenas mostrou o que eu já sabia: César era ambicioso.
CLÁUDIO: E eu também era, mas eu admito. Você se esconde atrás da palavra “república” — como se ela lavasse o sangue.
(Pausa.)
BRUTUS: E depois? Depois que matou seu irmão? Como dormiu?
CLÁUDIO: Mal, muito mal. Tento rezar… mas as palavras não saem.
“Minhas palavras voam para cima,
meus pensamentos ficam embaixo.
Palavras sem pensamentos
nunca chegam ao céu.”
BRUTUS: Ao menos você tenta rezar. Eu nem isso faço mais.
CLÁUDIO: Porque você ainda acredita que agiu certo.
BRUTUS: Agi, sim!
CLÁUDIO: Então por que Roma virou império? Por que Marco Antônio te destruiu? Por que Otávio se tornou César de qualquer jeito? Você matou um homem e criou uma dinastia de tiranos.
BRUTUS: E você? Você matou um rei e criou Hamlet.
(Cláudio paralisa.)
CLÁUDIO: … Sim, é verdade.
BRUTUS: O sobrinho que você devia proteger. O filho do homem que você matou. E quando ele descobriu?
CLÁUDIO: Tentei matá-lo também.
BRUTUS: Só tentou.
CLÁUDIO: Falhei. Ele me matou. Com a espada envenenada que eu preparei para ele. Ironia divina, talvez.
BRUTUS: Justiça divina.
CORO — à parte:
A justiça chega atrasada,
mas chega.
(Silêncio pesado.)
BRUTUS: Não era a mesma coisa.
CLÁUDIO: Não? César te chamava de filho. Te protegia. Te amava. E você o apunhalou. Eu matei meu irmão por desejo. Você matou seu pai por… política?
BRUTUS: Por Roma! Pela República! Pelo que vocês chamam de Democracia.
CLÁUDIO: E o que Roma te deu? Guerra civil. Perseguição. Uma espada para cair em cima. Onde está Roma agora?
BRUTUS: E você? Gertrudes morreu envenenada por acidente. Laertes morreu. Hamlet morreu. Ofélia enlouqueceu e se afogou. Onde está seu amor agora?
CLÁUDIO: No inferno. Junto comigo.
(Pausa longa.)
BRUTUS: Você acha que a sociedade nos toleraria… se justificássemos?
CLÁUDIO: Talvez. A sociedade tolera quase tudo quando recebe uma boa história.
CORO — à parte:
Desde que a história soe necessária.
BRUTUS: Minhas razões não eram egoístas.
CLÁUDIO: Não? Você não quis ser visto como salvador? Não gostou quando te chamaram de nobre? Você pode ter matado por Roma — mas também por si.
(Brutus hesita.)
BRUTUS: Eu queria salvar Roma — Pórcia se matou.
Minha esposa não tinha nenhuma Roma.
CLÁUDIO: E você também queria glória. Poder. Sentido. Lugar na história. Eu quis a coroa. Quis Gertrudes. Quis tudo.
CORO — à parte:
Os motivos variam. O sangue é o mesmo.
BRUTUS: Se eu pudesse voltar…
CLÁUDIO: Faria tudo igual. Eu também. Era inevitável. Era possível. Era nosso momento.
BRUTUS: E agora?
CLÁUDIO: Agora damos nomes melhores. Chamamos de erro. De excesso. De contexto.
(Pausa.)
BRUTUS: Talvez nos tolerem se dissermos que amávamos.
CLÁUDIO: Eu amava Gertrudes! Eu amava Gertrudes —
“Com alegria no funeral e luto no casamento.”
BRUTUS: Eu amava Roma.
(Silêncio.)
CLÁUDIO: E ambos matamos o que não devíamos matar.
BRUTUS: Você matou seu irmão.
CLÁUDIO: E você matou seu pai.
(Eles se encaram.)
BRUTUS: Então, estamos condenados.
CLÁUDIO: Sim. E sabemos exatamente o porquê.
(Silêncio longo. Eles não se olham mais. O jato segue estável.)
CORO — à parte (final):
Aguardamos.
(Luz baixa.)
FIM.
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CAPÍTULO XXI
ONDE SE DIZ UMA FRASE VERDADEIRA E SE DÁ CRÉDITO AO AUTOR





