Terceira Crônica, 15 de maio de 2026
GRINGO
Ontem, me declarei gringo.
Gringo é uma categoria indefinida de estrangeiro; pode ser italiano, americano, alemão, etc. Só não pode ser português. Português não é gringo, é portuga. Logo, eu não era português.
Na verdade, agora, escrevendo minhas ideias — e já dizia um amigo que pobre é cheio de ideias — vejo que eu também não seria um gringo africano ou gringo oriental: não existem estas categorias.
Uruguaio não é gringo, argentino também não. Latino-americano em geral não é gringo, é castelhano. Foi-se o México. Foi-se a Espanha.
Europa oriental pode ser gringo. Até o momento que se identifique a origem – pronto: búlgaro não é gringo, russo é russo, polonês é polaco. Aliás, nunca tinha reparado que quase todos os países da região têm o nome terminado em “ia”: Moldávia, Estônia, Letônia, Lituânia, Eslováquia, Romênia. Gringo da Moldávia? Nem vem pra cá. Quem apareceu nas transmissões das Copas de 1954 e 1966 foram os húngaros, mas eles são os magiares e ganharam da gente. Nenhum gringo por aqui.
Oriente Médio? Todos árabes. Ou turcos.
Na indefinição da minha origem gringa, me obriguei a pensar por que, afinal, eu havia declarado esta bobagem.
Pensei rapidinho: gringo não precisa entender o Brasil. Vem, aproveita o aproveitável e vai embora.
Não sou gringo. Eu fico. Eu havia me declarado gringo depois das notícias.
Envelhecido, cheio de saudade
Ando na multidão
Sempre na mesma idade.
— Millôr Fernandes
Enternecido, abano e dou tchau
Sentado na mesa
Ainda não é o final.
— Vitor Bertini



