Brasília, 12 de dezembro de 2025
Falemos de livros.
A história do seu Borges, o responsável pela Biblioteca Municipal Alziro Woll, lá em Novo Oeste — acho que ficará cego no fim da vida —, é uma promessa feita e jurada: aqui, agora e por mim. Vale pouco.
Enquanto seu Borges não vem, por favor, fiquem com Os livros do meu pai e com Os livros do seu Oswaldo. Quem quiser ficar com os meus, os links estão lá embaixo.
OS LIVROS DO MEU PAI
Meu nome é Mariana, sou estudante de publicidade e terminei, agora mesmo, a melhor apresentação que fiz em toda a minha vida. Hoje é quarta-feira de um agosto qualquer, acho que são cinco da tarde e estou muito feliz.
A live foi transmitida aqui de casa, do escritório do meu pai. O nome dele é Sérgio Baker Atkinson de Alencar e o da minha mãe é Lígia.
Foi ela quem me convenceu a usar o escritório. Argumentou que a luz era ótima, a acústica seria boa e as madeiras, quadros e livros comporiam bem como cenário. Aceitei. Depois, foi dela também a tarefa burocrática de conseguir o alvará — há dias que eu andava às turras com meu pai.
Falando nisto, lá está ele, fazendo tempo, esperando o fim da minha ocupação consentida, caminhando no jardim. Aqui de cima, vista da janela do escritório, a vida parece diferente — acho que aplicaram um filtro que elimina ansiedades.
Minha palestra se chama Be Water, e eu tinha certeza que ia dar certo. Comecei com o histórico da fala do Bruce Lee, expliquei o conceito e terminei com alguns exemplos. Funcionou legal.
Só dei uma travada quando o Álvaro, nosso professor, pediu um zoom da prateleira dos livros e começou a ler os títulos em voz alta. A seguir, citando minha própria fala, disse para eu “esvaziar a mente, ser sem forma, ser como a água; me adaptar ao ambiente”, e relacionar o tema com algum dos livros que eu tivesse lido. Os livros do meu pai.
Olhando para o que parecia ser uma biblioteca inteira, de costas para a câmera, eu conseguia ouvir o silêncio da expectativa de todos. Peguei o primeiro livro que a mão alcançou, e corri suas páginas até que algumas linhas sublinhadas em vermelho chamaram minha atenção. Parei ali. Voltei a ficar de frente para a câmera e li em voz alta:
— 68 Contos, Raymond Carver. “É agosto. Minha vida vai mudar. Sinto isso.” – Todos riram, inclusive o Álvaro.
Respirando aliviada, me enchi de coragem: larguei os Contos, retornei à estante e consegui ver um título conhecido: Alice no país das maravilhas. Repeti a folheada até encontrar novas linhas sublinhadas e uma frase manuscrita, com a letra de papai. Voltei à platéia:
“— Por onde devo começar, por favor, Majestade? — Perguntou o Coelho Branco.
“— Comece pelo começo — disse o Rei gravemente — e prossiga até chegar ao fim; então pare.
Fiz a pausa de um ponto e acrescentei a frase rabiscada: “a vida não é assim”.
Diante de novos risos, improvisei:
— Assim, é só nosso curso.
Fui muito aplaudida.
É agosto. Minha vida vai mudar, sinto isso. Amo meu pai e vou lá em baixo dar um beijo nele.
OS LIVROS DO SEU OSWALDO
Manoelzinho, o primeiro louco de Novo Oeste, caminhava inclinado para a frente, olhava para o chão e xingava as formigas. Dormia na rodoviária — sob as bênçãos da gerente Iracyna — e ninguém sabia como alimentava-se. De tempos em tempos, junto com um upa, inclinava-se para trás e, parado, olhando pra cima, xingava as nuvens ou conversava com Deus.
Cada cidadão de Novo Oeste frequentava uma das duas igrejas existentes na cidade e falava mal de quem frequentava a outra. Alternando os domingos, Manoelzinho frequentava as duas. Chegava quando todos já rezavam, parava de pé ao lado de um dos últimos bancos e ia embora, inclinado para a frente, no início dos ritos finais.
O casal Oswaldo era novo na cidade. Aos domingos, iam à missa; dona Alice, passos curtos, em silêncio e vestida em tons discretos, apoiava-se no braço do marido que, de tragada em tragada imaginava estar conversando. Depois da liturgia, agradecendo os convites com pequenos acenos de mão e sorrisos, evitavam a roda do cafezinho da igreja e iam para casa.
— Ele veio para fazer a obra do novo mercado — explicava o padre Chico, atendendo a curiosidade dos fiéis enquanto conferia, de longe, se os ventiladores da igreja haviam sido desligados.
— Dizem que ele perguntou se em Novo Oeste não tem uma livraria — atalhou uma das beatas, fazendo olhares e honrando as tradições da cidade.
Em casa, depois da missa, dona Alice vestia colorido, a cozinha era serventia e o jardim uma esperança de brisa; seu Oswaldo tirava a gravata, sentava para ler e suava. Em domingos com futebol do time local, a rotina mudava: a bola ganhava o espaço dos livros, o almoço era no restaurante do Celso, lá na beira da estrada e dona Alice, de volta ao lar, sozinha, podia passar o café do jeito que gostava.
Em um certo domingo de futebol e calor ainda mais quente, na esperança do vento, dona Alice abriu a casa, desistiu de seu café e sentou-se no jardim. Na calçada, aparentemente alheio à temperatura, caminhando na direção do sol, inclinado para a frente e com as mãos cruzadas nas costas, resmungando qualquer coisa e perseguindo uma trilha verde de formigas-carregadeiras, vinha Manoelzinho.
Vindo, não viu a dona da casa sentada no jardim. Viu a porta aberta, a parede da sala coberta de livros e parou. Parado, ainda inclinado, de pescoço torcido e olhos arregalados, Manoelzinho emudeceu. Com um misto de encantamento e susto dona Alice levantou e encostou a porta — só para ouvir um upa e ver Manoelzinho, agora inclinado para trás e de mãos cruzadas na barriga, espiando os livros pela janela aberta.
Decidida a ir fechar a janela, a involuntária anfitriã, agora enternecida com o invertido pêndulo humano, viu sua visita voltar à posição original tão logo abriu a porta para entrar na casa:
— Me espere, preciso fechar a janela, mas tenho um pedaço de bolo e uma limonada gelada.
Foi só muito tempo depois do fim da obra do novo mercado, já em outros oestes, que dona Alice contou o acontecido para o marido:
— O Manoelzinho não estava mais na frente de casa quando eu cheguei com o lanche. Fiquei triste. Como será que ele se alimentava?
Seu Oswaldo ouviu a história da esposa, deu uma longa tragada, fechou o livro que estava lendo, acarinhou sua capa, deu outra tragada e pensou que tinha respondido.
Vitor Bertini
Em uma sutil e nada modesta homenagem ao mestre Vincent van Gogh, aqui vão os links para os livros do Bertini:
A Profeflor, edição do autor - Esquina do Lombas
Não me abandone, edição do autor - Esquina do Lombas
Clique, ajude a pedalar — e aprecie a viagem! Você pode não acreditar, mas fazendo este curso você ajuda a literatura brasileira.
CAPÍTULO XXI
ONDE SE CONTA COMO A VIDA IMITA A ARTE
Assim, os dossiês e, principalmente, o ato de acusação, permaneciam secretos para o acusado e seu advogado, o que geralmente impedia de saber a quem dirigir o primeiro requerimento e, no fundo, só dava a esse requerimento a possibilidade de fornecer elementos úteis na eventualidade de um feliz acaso. As petições realmente úteis, acrescentava Hierr Huld, só podiam ser feitas mais tarde, no decorrer dos interrogatórios, se as perguntas dirigidas ao acusado permitissem distinguir ou adivinhar os pontos principais da acusação e os motivos em que se apoiavam. Naturalmente, em tais condições, a defesa encontrava-se numa situação muito desfavorável e muito difícil, mas era essa a intenção do tribunal.
O Processo, Kafka, Círculo do Livro
Esta edição é dedicada a todos que, sabendo ler, exercitam o ofício.
Bjs, viu?






