Não Me Abandone, 17 de abril de 2026
BLAU
Naqueles dias seu nome era Blau. Era jovem, inocente, e a vida parecia rosa.
Naquela fatídica manhã, na casa dos Hatt, todos despertaram quando o dia ainda não era dia e o cheiro de café tomava conta da casa. Saíram cedo levando a voz de comando do pai, os passos rápidos da mãe, os meninos com suas mochilas e o pequeno Blau, agora sem a coleira. Blau lembra que o dia estava frio e ventava. Blau lembra também que o trajeto foi tão demorado quanto a vida que ele conhecia e que na van ninguém falava. Depois, tudo aconteceu muito rápido.
O Sr. Hatt parou a van, abriu a porta, e Blau foi empurrado pra fora. Tão rápido foi o desembarque — uma pata terminou dentro de uma lata com restos de tinta branca — quão rápida foi a arrancada da van na direção do vento. No vidro traseiro, dois pares de olhos fixos testemunhavam a cena.
Com a pata suja e o coração acelerado, o pequeno cão olhava para todos os lados e girava rapidamente sobre si mesmo tentando entender. Cheirava e ouvia, todo atenção. O olfato perdeu o rastro, os ouvidos trouxeram o som do vento, o olhar não reconheceu ninguém, o dia ficou mais frio, a rua mais deserta, os muros começavam a crescer quando uma descarga de adrenalina trouxe o gelo da certeza. A certeza de que a vida nunca mais seria a mesma. Blau não era mais Blau, agora era um cão de rua com uma pata pintada.
— Eu, que de amores meus só tinha vocês… por quê? — pensou, cerrando os olhos.
Quando abriu os olhos, Bénya estava olhando fixo para ele.
A vida do pequeno cão abandonado não seria nunca a vida de Blau.
Observações com sentido:
Blau é o 7º capítulo do livro Não me abandone — o primeiro do locutor que vos fala.
Bénya Krik — um cão de rua — é o nome do personagem central da história.
Quando Bénya foi nomeado, Georgy Butka — o açougueiro — gritou:
— Salve, Bénya! Generoso e cruel como um rei! Salve, Bénya Krik, o Rei!
Observação sem sentido:
Quem ficou interessado nesta história de cães, liberdades e açougueiro, por favor, procure o Sr. Jeff Bezos no balcão da Amazon. Ou o autor, por aqui mesmo.
Mais do que nunca, fui.



