Terra do Franz, 19 de junho de 2026
BARATA VOA
Semana passada encontrei uma barata entre meus textos. Ia matá-la com uma combinação de frases curtas, quando lembrei do Samsa — aquela barata do Kafka que não era barata, era escritor. E se não fosse uma barata?
Não matei. Decidi ficar olhando; ela também. Imóvel. Dois segundos, duas antenas. Uma vida.
A primeira barata a vagar entre as histórias que escrevo ciscava nos meus enredos, buscava alimento nas entrelinhas que sussurro e no espanto do que me espanta. Devorando vírgulas. Conformada ao nosso tempo, vestida para durar mil anos.
Sentado, respiração contida, cuidadoso com a integridade do meu trabalho, afastei as frases mais jovens, abri uma avenida para sua fuga entre parágrafos longos e em vão ofereci adjetivos suculentos — promessas de sabor e sentido.
De repente, assim como acontece com alguns textos rasteiros, a barata começou a voar — assustando as pessoas, levantando papéis, misturando frases.
Do pânico inicial das frases meninas ao passar trivial do tempo, recolhi o que sobrou do verbo e reiniciei meu teclar: não mato baratas, escrevo.
Fui.
Que venham os jogos.



