A cara do vô
#297 Honrado Senhor Diretor da Companhia Telefônica.
Enfim Uma Crônica, 13 de março de 2026
A CARA DO VÔ
Mãe da Luiza, Gabriela caminhava pelo centro histórico da cidade de São Paulo quando um livro antigo e fininho, exposto na vitrine de um sebo, chamou sua atenção: Para gostar de ler – Vol 4 – Crônicas, de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Era a cara do vô.
Recebi o presente das mais lindas mãozinhas do mundo. Beijei suas bochechas, apertei sua barriga e fomos até o céu. Na volta à terra, sentado no chão, mostrei a um olhar curioso as páginas cheias de letrinhas e li em voz alta a primeira linha da primeira crônica, passando o dedo pelo texto:
— Honrado Senhor Diretor da Companhia Telefônica — só para ouvir a resposta,
— Telfônica — acompanhada de um dedinho que pousava na página seguinte.
No intervalo de uma semana, no ritmo que os clientes e a vida paulistana permitem, naveguei entre as seções que o livro chama de Utilidades, Estilos, Observações e Palavras. As explicações e a realidade, a última seção, ficou para o voo de volta para Porto Alegre.
Concluí a leitura do último texto — Para Maria da Graça, do Paulo Mendes Campos — quando o sistema de som anunciava:
Senhoras e Senhores, bem-vindos a Porto Alegre. Para sua segurança, mantenham-se sentados e com os cintos de segurança afivelados até que a aeronave pare totalmente e o aviso de apertar cintos seja apagado.
Fechei o livro, os olhos e, por alguns minutos, me deixei levar para longe.
Quando voltei, com as luzes de apertar os cintos ainda ligadas, vi 120 almas disputando um corredor, outras 120 cabeceando os compartimentos superiores recém-abertos e mais 120, em estranhas posições, tombadas sobre disciplinados passageiros sentados.
Voltei a fechar os olhos e pensar no futuro da Luiza. Saudades dos nossos cronistas.
VB
Compartilhe: Imperativo — está na moda, não? — afirmativo da terceira pessoa.
Fui.
Beijos generalizados.



